DE VOLTA AO FUTURO

FAUPE, DE VOLTA AO FUTURO

(Um sonho interrompido)

Em meados de agosto de 2010, começavam a fervilhar os rumores sobre o possível fechamento da FAUPE. Fato confirmado logo depois, ao ser anunciada a sua venda e incorporação a uma holding de microescolas comandada pelo grupo Maurício de Nassau.

Com isso, chegava ao fim um sonho que marcou corações e mentes de várias gerações de jovens arquitetos pernambucanos.

Meninos e meninas, eu vi!

Era 1987, em pleno período da democratização do país, depois de longos anos de ditadura militar, quando chega a notícia que haveria de revolucionar o meio escolástico. Ou seja: a criação de uma nova escola de Arquitetura, na cidade do Recife, até então dominada pela tradicional Universidade Federal de Pernambuco.

A notícia caiu como uma bomba junto a certos círculos acadêmicos, cujos representantes se julgavam donos de uma capitania hereditária do Ensino de Arquitetura.

A notícia, por outro lado, coincidia com o surgimento, em São Paulo, da revista AU- Arquitetura e Urbanismo.

Tanto a nova Faculdade, reconhecida alguns anos depois pelo MEC, quanto a nova publicação tinham um ideal comum: a renovação conceitual e critica em relação à produção e reflexão sobre a prática e a cultura arquitetônicas.

A princípio, a nova Faculdade, sob o comando do historiador Armando Souto Maior e a coordenação da guerreira Vitória Régia Andrade, apostou suas fichas num ensino fecundado pela visão crítica da história da Arquitetura. Mais tarde, sob a coordenação do professor Maurício Rocha, a ênfase foi preparar o futuro profissional para enfrentar, com competência, o mercado cada vez mais competitivo. Segundo alguns, esse foi o grande diferencial da nova escola particular em relação à Federal. Uma se preocupava com o exercício profissional, a outra com o viés acadêmico voltado para a pesq  uisa, cursos de especialização e mestrado.

Enquanto isso, a AU idealizada pelo empresário Sérgio Pini, pai do arquiteto Mario Sérgio Pini, seu principal fundador e diretor, apostava na inovação editorial, em termos de linguagem jornalística, diagramação e enfoques temáticos, além da análise crítica da produção arquitetônica brasileira contemporânea.

 – Meninos… eu vi!

Eu me lembro que hospedado na Pousada Quatro Cantos, em Olinda, fui procurado por um grupo de alunos (a dinâmica Tereza Simis, a eficiente Vera Menelau, a astral Betânia Sampaio, o competente Fernando Medeiros, o franciscano Luiz Augusto e a sensível Melânia Forest), que me convidou, na condição então de editor da revista AU (ao lado das jornalistas Haifa Y. Sabbag, Lívia Pedreira e Éride Moura) para participar do I Ciclo de Debates sobre Regionalismo Crítico promovido pela FAUPE.

Suco de pitanga ou coca-cola?

A indagação do jovem Buga (Geraldo Marinho) sintetizava a linha reflexiva dos debates. Ou seja: qual a opção? Arquitetura Vernacular ou Arquitetura Internacional, sem identidade e cor local?

Os debates contaram com a presença expressiva de profissionais, entre os quais Assis Reis (BA), Marco Antonio Borsoi e Carlos Fernando Pontual (PE), Mauro Neves (RJ), Mario Aloísio e Ovídio Pascual (AL), além do irreverente e polêmico Expedito de Arruda (PB). Provocador, Expedito projetou, de propósito, o slide de um de seus projetos, de cabeça para baixo, em meio ao espanto da platéia. Ele reagiu, argumentando: – jovens, quem disse que existe apenas uma forma de se ver as coisas?

Com certeza, uma bela metáfora, que traduzia toda a filosofia da instigante escola. Filosofia alimentada pela competência e idealismo de seu corpo docente. Que tinha, entre seus professores, arquitetos do quilate e QI de um Antônio Amaral, Carmen Mayrink, Marco Antônio Borsoi, Milton Botler, Noé Sergio, Roberto Montezuma, Vera Pires e Zeca Brandão. Aliás, numa experiência pioneira, muitos alunos, depois de formados, foram incorporados, também, ao elenco de professores.

– Para Luiz Augusto, a Faupe significou – uma mãe. Pois eu nasci dela. Que me ensinou os primeiros passos do meu caminhar.

– Faupe? A meu ver, foi uma espécie de Bauhaus pernambucana, em busca de um novo pensamento e olhar arquitetônico, diz Melânia Forest.

Eu já havia me formado em bioquímica, mas depois de voltar de Israel, onde vivi mais de três anos, decidi ingressar na Faupe, com um único objetivo: conhecer melhor a história da Arte, que me fascinava, mas acabei sendo arrebatada pela Arquitetura, revela a arquiteta e arqueóloga Tereza Simis.

– Para a escultora, artista plástica Lígia Costa, a faupe fortaleceu minha maneira de ver, sentir e descobrir outros ângulos da arte.

O sonho, enfim, foi interrompido, mas sua história continua a iluminar os caminhos e trilhas de muitos arquitetos que atuam hoje em escritórios de Arquitetura, autarquias ou órgãos públicos, como a Chesf ou a Petrobrás.

Em síntese, uma história e uma experiência exemplar de Ensino – sem dúvida, uma das mais bonitas do século XX e da primeira década do século XXI – que nem o tempo nem ninguém conseguirão apagar.

Jornalista José Wolf

Recife/dezembro 2010

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6 respostas para DE VOLTA AO FUTURO

  1. Wolf, que materia maravilhosa!!!! Que lembranças me veio lendo seu texto. muito obrigada por esta oportunidade e Parabens. muitos beijos e obrigada pelo carinho.

  2. Cecília Barthel disse:

    Com esta matéria sinto que não passou em branco esta história de poucos anos mas de muitos frutos. Sentirei saudades!

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